
Considera com desvelo esta canção
Que é pulso e que é, talvez, essência
Objeto obscuro cuja pobre eloqüência
Declara intento mas revela discrição
Não é por fazeres da vida o teu circo
E das diferenças o teu trampolim
Nem por caminhares tão arisco
Sobre as bordas de um tamborim
Que és isento de todas as dores
Que podes manipular as cores
Ou persistir no tormento de teus amores
E gritar sempre: Senhoras e senhores!
Na tina vazia, te atiras de novo e de novo.
Não vês que tua platéia, impotente, chora?
E te jogas, e te machucas, e te jogas novamente.
(Tua platéia, angustiada, não consegue ir embora!)
Neste circo onde és artista único
Onde assumes equilíbrio numa corda imaginária
Onde tentas, obstinado, domar um leão de plástico
O teu fascínio é entrar no globo da morte
e girar e girar e girar e mil vezes girar...
É insistir em atravessar o círculo de fogo
mesmo sabendo que te queimas toda vez...
Res-pei-tá-vel pú-bli-co!!!
Respeitável palhaço...
De presente, teu coração com um laço
Em recompensa, a indiferença de um passo
Uma lembrança fotografada num estilhaço
Um olhar amigo e despovoado no espaço
Respeitável palhaço...
Em tua feição, já se nota um cansaço
Um pouco de flor e um pouco de aço
Às vezes, inteiro, às vezes, pedaço
Perdoa. Não deve ser fácil,
para muitos, ver o quanto és escasso.

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