domingo, 7 de março de 2010

Purgatório



Purgatório

“Do Inferno ao Purgatório e depois ao Paraíso
Tal viagem não seria, na verdade, uma vertigem?
E as palavras que disfarçam teu sorriso indeciso
Não viriam, na verdade, de um desejo sem origem?

Não vislumbre ‘O beijo’ incauto, improvável, de Rodin
Improvável, impossível, pois de mármore é o músculo
Pois teu prêmio de consolo: a sonolência da manhã
E os passos que te levam displicente no crepúsculo

E nas pálpebras fechadas, tuas pupilas dilatadas
Só enxergam o que sentem teus quietos lábios túmidos
E a boca ambicionada, no entanto, inalcançada
É a causa inevitável dos teus tristes olhos úmidos”

A resposta, equilíbrio insistente, agonizante:
Não me importa, no deserto, tua razão cheia de ritmo
Pelos olhos, pelas mãos, pela voz de um ser pedante
Meu afeto desmedido é, contudo, o mais legítimo

Lapidado com destreza pelo instrumento eólico
O afeto a mim se impõe, muito embora tão suspenso
Com seus gestos compilados em meu puro ser simbólico
Guardo a graça glacial do vermelho mais intenso.

Deus e o diabo na terra da garoa



Deus e o diabo na terra da garoa

Sei apenas que és um lugar
E que ainda me custa te achar

Quero ver-te, São Paulo oculta
Sei que és puta e és donzela
És adulta em sentinela
És um pranto a se calar

Quero verde, São Paulo cinza
De tão cinza, a arte arde
És um cinza sem vontade
Com vergonha de assustar

Quero moer-te, São Paulo dura
Tens candura e tens atrito
Quando és pura, o teu grito
É um menino a blasfemar

Quero aquecer-te, se és verdade
Tens idade e não tens tempo
Há saudade em teu ar bento
E vaidade em teu olhar

Quero esquecer-te, se és mentira
O que tira esse teu manto?
É o que atira em meu encanto
Ou o que me faz silenciar?

Quero anoitecer-te, se és preguiça
Com cortiça, compor uma cama
E uma mestiça que não te ama
Será feliz em te ninar.

Inverno

Ainda resisto a essa imantação brutal
Mas com a fluida essência a gotejar meu sono
Tanto e tanto mais eu como desse sal
Tenho mais sede e mais sal mais sal eu como

Mas não me envolve mais calor e menos frio
Com uma espessa neve cubro minha elocução
Deixo obscuro o meu instante mais febril
O meu asilo é essa outra dimensão

Envergonhado, me parece mais perfeito
Este fôlego secreto e vulnerável
No inútil e sublime ar rarefeito
A sobriedade é a lágrima inefável

Mas o cavalo que, audaz, corre à neblina
Não está tão certo de seu corpo encoberto
Pois em seus olhos: a verdade cristalina
Consonante com seu coração desperto

Meu retrato na quina da embriaguez
Mente a severa frieza deste solistício
Emoldurada por uma grave lucidez
Caminho irônica por este chão difícil.

A cor do medo



A cor do medo

O desejo de nascer me inquieta
A necessidade de falar, de ouvir
De experimentar meu insípido existir
E desatar de alguém um amargo poeta,

que seja. Ou doce, salgado, azedo...
Ver e sentir como é ser visto e sentido
cutucar a casa do cupim e sentir o prurido
sorver a vida, agoniar-me... não tenho medo

Medo, eu tenho da vida com legendas,
Traduções erradas das nossas falas
Torrentes de mal-entendidos correndo em valas
Filmes com mal feitas emendas

Eu quero o gosto mais forte do existir
A cor, o cheiro mais forte. Eu não tenho medo.
Não tenho medo mais, nem da sombra do rochedo
que de preto tingia meu sorrir.

(Eu tenho medo é do medo,
que é da mesma cor da solidão.)

Respeitável palhaço



Considera com desvelo esta canção
Que é pulso e que é, talvez, essência
Objeto obscuro cuja pobre eloqüência
Declara intento mas revela discrição

Não é por fazeres da vida o teu circo
E das diferenças o teu trampolim
Nem por caminhares tão arisco
Sobre as bordas de um tamborim

Que és isento de todas as dores
Que podes manipular as cores
Ou persistir no tormento de teus amores
E gritar sempre: Senhoras e senhores!

Na tina vazia, te atiras de novo e de novo.
Não vês que tua platéia, impotente, chora?
E te jogas, e te machucas, e te jogas novamente.
(Tua platéia, angustiada, não consegue ir embora!)

Neste circo onde és artista único
Onde assumes equilíbrio numa corda imaginária
Onde tentas, obstinado, domar um leão de plástico
O teu fascínio é entrar no globo da morte
e girar e girar e girar e mil vezes girar...
É insistir em atravessar o círculo de fogo
mesmo sabendo que te queimas toda vez...

Res-pei-tá-vel pú-bli-co!!!

Respeitável palhaço...
De presente, teu coração com um laço
Em recompensa, a indiferença de um passo
Uma lembrança fotografada num estilhaço
Um olhar amigo e despovoado no espaço

Respeitável palhaço...
Em tua feição, já se nota um cansaço
Um pouco de flor e um pouco de aço
Às vezes, inteiro, às vezes, pedaço
Perdoa. Não deve ser fácil,
para muitos, ver o quanto és escasso.