
Purgatório
“Do Inferno ao Purgatório e depois ao Paraíso
Tal viagem não seria, na verdade, uma vertigem?
E as palavras que disfarçam teu sorriso indeciso
Não viriam, na verdade, de um desejo sem origem?
Não vislumbre ‘O beijo’ incauto, improvável, de Rodin
Improvável, impossível, pois de mármore é o músculo
Pois teu prêmio de consolo: a sonolência da manhã
E os passos que te levam displicente no crepúsculo
E nas pálpebras fechadas, tuas pupilas dilatadas
Só enxergam o que sentem teus quietos lábios túmidos
E a boca ambicionada, no entanto, inalcançada
É a causa inevitável dos teus tristes olhos úmidos”
A resposta, equilíbrio insistente, agonizante:
Não me importa, no deserto, tua razão cheia de ritmo
Pelos olhos, pelas mãos, pela voz de um ser pedante
Meu afeto desmedido é, contudo, o mais legítimo
Lapidado com destreza pelo instrumento eólico
O afeto a mim se impõe, muito embora tão suspenso
Com seus gestos compilados em meu puro ser simbólico
Guardo a graça glacial do vermelho mais intenso.



